
(Da esquerda para a direita: Machado de Assis, Vinícius de Moraes, Guimarães Rosa, Lima Barreto e João Cabral de Melo Neto: ócio produtivo)
Há todo tipo de escritor. Existe escritor-guerrilheiro. Escritor-aristocrata. Escritor-cientista. Até escritor-escritor. Dependendo das circunstâncias, algumas dessas categorias costumam se dar melhor ou pior. O escritor-sindicalizado, por exemplo, era o único que tinha vez na ex-União Soviética. Já os Estados Unidos cultivam a variedade do escritor-popstar – aquele que fala melhor do que escreve. Ao longo da História, o Brasil também deu sua contribuição originalíssima a esse panteão. Nossa especialidade: o escritor-barnabé. Com o perdão da metáfora burocrática, a literatura brasileira é, em grande parte, uma flor nascida no mofo das repartições públicas.
A rigor, seria possível distinguir dois tipos de escritor-barnabé: aquele que está mais interessado na carreira do que na literatura e o que está mais interessado na literatura do que na carreira. Como demonstrou o sociólogo Sérgio Miceli em Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil, nas décadas de 20 a 50 os dois grupos foram cooptados pelo Estado e acabaram se submetendo ao regime que serviam. Mas é claro que há uma grande diferença nas realizações literárias de uns e outros. Os primeiros, preocupados em bajular os chefes com seus textos, foram responsáveis, no máximo, por aquilo que o modernista Manuel Bandeira chamou, com desprezo, de "lirismo funcionário público", comedido e esteticamente acomodado. Os integrantes do segundo grupo queriam apenas sossego e segurança para realizar suas obras. O poeta Carlos Drummond de Andrade, que foi empregado do Ministério da Educação, escreveu a respeito deles um texto interessantíssimo. Para Drummond, a burocracia foi responsável pela existência de "uma certa tradição meditativa e irônica" na literatura brasileira. Sob suas asas, o escritor-barnabé podia construir em paz "o seu edifício de nuvens, como um louco manso e subvencionado". A lista dos bons autores que viveram a soldo do governo nos últimos 150 anos é impressionante. No século passado: Gonçalves Dias, Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar, Aluísio Azevedo, Olavo Bilac, Raul Pompéia, até o inigualável Machado de Assis, diretor de contabilidade da Secretaria de Agricultura. Neste século: Lima Barreto, Graciliano Ramos, José Lins do Rego. Guimarães Rosa era membro do Itamaraty, assim como Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto. Entre outros.
(Revista Veja)